domingo, 17 de dezembro de 2017

ELEMENTOS - ÁGUA 4

Curiosidade dominical, e dando seguimento à relação entre elementos e Arte: o uso da água enquanto elemento musical. Na distante ilha de Vanuatu, a 17.760 kms. do local onde me encontro, as mulheres fazem música assim:

OS RÉGULOS DA LEITURA PÚBLICA

Torna-se hábito, cada vez mais, o Poder Central dar ordens às autarquias. Manda fazer. Uns pensam, outros executam. Um complexo de superioridade que tenho, ao longo da carreira, acompanhado e presenciado por diversas vezes.

Vem isto a propósito do Concurso Nacional de Leitura 2018, cujo regulamento atribui às Bibliotecas Municipais tarefas específicas. Até aqui, nada de especial. Caso as autarquias tivessem sido envolvidas no processo e dado o seu acordo. Tal não aconteceu. As entidades organizadoras (onde não está a Associação Nacional de Municípios Portugueses) atribuem às bibliotecas municipais, subalternizando-as, tarefas organizativas bastante alargadas. Que pena que isto não tenha sido em 2017...

sábado, 16 de dezembro de 2017

CORPORAÇÕES DO SÉCULO XXI - RUA DOS TELEMOVELEIROS

RUA DOS TELEMOVELEIROS

Aprendíamos na escola que os ofícios se organizavam por zonas, dentro das cidades e mesmo em vilas de menores dimensões. Em Moura, ainda temos na toponímia local a Rua dos Ourives, tal como tivemos em tempos a Rua da Verga ou a Ruas das Tendas. Em Lisboa, a Baixa Pombalina conserva uma memória viva, mas só já mesmo sob a forma de memória, das corporações de outrora: Douradores, Sapateiros, Fanqueiros, Correeiros… Os negócios desapareceram, ficaram as placas toponímicas.

Vem isto a propósito de uma recente passagem por um Centro Comercial nos subúrbios de Lisboa. O sítio chama-se Babilónia e o nome é mais que apropriado. O desenho do espaço é caótico e as pessoas perdem-se lá dentro. Sempre que lá passo sou interpelado por senhoras, sempre na casa dos 60, que me perguntam, “olhe lá, jovem, a saída é para que lado?”. O tratamento por “jovem” angustia-me por constatar que a miopia galopa com a idade. E a desorientação confirma uma velha tese de género: as senhoras conseguem cozinhar quatro pratos em simultâneo, mas têm genéticas dificuldades de orientação espacial.

Indo adiante, e Babilónia dentro, constatei, nessa última visita, que o interior do sítio muda a uma velocidade que desorienta, ainda mais, qualquer um. Já quase não há lojas de roupa. Essas migraram para outros sítios. Ou faliram. Há um ou dois cafés. Um sítio onde vendem jornais. A clientela é maioritariamente de origem africana. Que se vende no Babilónia? Telemóveis. Há lojas de venda de aparelhos, de capas para aparelhos, de carregadores para aparelhos, de cartões para aparelhos. Fazem-se carregamentos e pagamentos. Ensinam-se esquemas e truques. Há uma nova corporação a ser formada. Os comerciantes não são portugueses brancos nem portugueses negros. São emigrantes asiáticos, do Paquistão, da Índia, do Bangladesh. Falam um português hesitante e de pouquíssimas palavras. Mas conhecem como ninguém a linguagem dos números, o valor das coisas, a cotação das peças. O que lhes falta num verbo, dizem de outra forma, rapidamente, suavemente, e colocando o cliente onde querem. Deixando o cliente satisfeito, que é a melhor forma de consumar negócios. Tudo isto com sorrisos largos e gestos amigáveis e generosos. Dali, toda a gente sai contente. Eles, solidariamente, vigiam-se e protegem-se. São, nesta nova babilónia de negócios, a nova corporação medieval do século XXI. São os telemoveleiros.

Crónica publicada em "A Planície".


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

PRÉMIO PESSOA 2017 COM OBRA EM MOURA

O Prémio Pessoa 2017 foi atribuído ao arq. Manuel Aires Mateus.

Palavras do júri: “A sua arquitetura é moderna, abstrata e contemporânea, mas parte de uma recolha de formas e materiais vernaculares portugueses, que integra de um modo exemplar. A construção de formas e volumes é feita com um caráter inovador, por subtração de matéria, esculpindo vazios, contrariando assim o sentido clássico do projetar. Na obra doméstica e na recuperação de edifício é raro provocar ruturas, mas não cede a mimetismos fáceis, conseguindo estabelecer uma continuidade entre passado e atualidade”.

Em Moura é da sua autoria o prédio que ocupa o quarteirão entre a Praça Sacadura Cabral, a Rua Miguel Bombarda, a Rua dos Ourives e a Rua Conselheiro Augusto de Castro. Ocupou o local de uma ruína. Foi obra licenciada, e construída, durante os mandatos da CDU à frente da Câmara Municipal. Levámos tanta pancada, mas tanta mesmo, à conta deste projeto. O reconhecimento do autor deixa margem para satisfação. Nada mais a dizer...


CRENTES, MAS NÃO PRATICANTES

Interessante artigo de Luís Raposo, no Público:

https://www.publico.pt/2017/12/15/culturaipsilon/opiniao/luzes-e-sombras-em-vesperas-do-ano-europeu-do-patrimonio-cultural-1795735?page=/opiniao&pos=1&b=list_opinion

Com um dado curioso sobre a nossa forma de encarar o Património Cultural. E que, creio, diz muito sobre nós:

THE HOAX SOCIETY: QUANDO JOSEPH CRABTREE FOI JANTAR AO "THE SHED AL DULWICH"

Joseph Crabtree nunca existiu. Contudo, todos os anos há um jantar em sua honra, promovido pela Crabtree Fundation. O homenageado tem uma biografia e obra feita. Poderia ser um conto de Jorge Luis Borges. E é, seguramente, uma daquelas excentricidades típicas dos bifes.

Vem isto a propósito da promoção de um restaurante que não existe e que chegou ao topo da gastronomia no Reino Unido. A história pode ser lida aqui.

O nosso quotidiano vive rodeado de hoax, de fake-news, de julgamentos sumários, de sangue na via pública, de difamação mascarada de jonalismo.

É como se Jorge Luis Borges tivesse ressuscitado e só tivesse arranjado trabalho como repórter da CMTV.

E vai piorar.


Sobre Joseph Crabtree - http://www.ucl.ac.uk/crabtree

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

SALÚQUIA FORA

A casa de cima fica, apropriadamente, na Rua da Saudade. É uma das ruas do alto da Salúquia. É um das últimas casas no bairro que conserva a memória de como era a Salúquia, há uns bons 45 anos. Nessa altura, o bairro não estava pavimentado e quase não tinha habitações com o primeiro piso. As casas eram quase todas como esta, uma porta e uma janela, às vezes, uma porta e duas janelas. A relativa prosperidade dos anos que se seguiram, causaram radicais alterações na arquitetura da Salúquia. Resta, intocada, esta habitação. E poucas mais.

Na imagem de baixo está o edifício onde outrora funcionou a fábrica de pirolitos. É uma fachada na esquina da Rua D. João I com a Rua Cardeal Lacerda. Tem rasgos antropomórficos e a graça está ai.


LATIM BANCÁRIO


Início de tarde pela Baixa Pombalina. É tudo fácil, em Lisboa... Mas tentem lá encontrar um fedora preto, nº 59.

Às tantas reparo num velho emblema de um banco já desaparecido. Sempre me chamara a atenção aquele mote: bonum facito, aures claudito... Nunca me lembrara de procurar a tradução. Até hoje, via google. Ora as palavras, se não há erro, querem dizer fazer bem, de ouvidos fechados. De ouvidos fechados? Um slogan destes, nos nossos dias, não seria possível. Uma coisa politicamente incorreta. Haveria bagunça, declarações, comentários dos tudólogos nos canais televisivos e, de certezinha, a exigência de mais uma audição parlamentar.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

PRÉMIO VASCO VILALVA - NOVAS TAREFAS, EM TEMPO DE TRANSIÇÃO

Um trabalho diferente, em excelente companhia. A tarefa é transitória, mas vale bem a pena este compromisso. A comissão de avaliação do Prémio Vasco Vilalva, que tenho a honra de integrar, está a laborar em pleno. A recuperação e a valorização do Património como tópico principal. Nada que esteja longe dos horizontes próximos de trabalho. Nada que não repute de essencial na perspetiva do desenvolvimento social e cultural.



A NOVA SECRETÁRIA DE ESTADO DA SAÚDE E MOURA

História verdadeira ocorrida no verão de 2009.

http://avenidadasaluquia34.blogspot.pt/2009/08/medicas-estrangeiras-em-moura.html

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O IRREPREENSÍVEL PAPEL DA CÂMARA FACE AOS BOMBEIROS

Quem o disse, não fui eu. Foi o Presidente da Direção dos Bombeiros em 7.2.2017. O comentário de Francisco Cerejo também é elucidativo.

Ou seja, a atitude do anterior executivo era irrepreensível antes das eleições e deixou de o ser depois das eleições.

Por agora, estamos conversados. Voltarei ao tema, dentro de umas semanas, com dados financeiros concretos. Antes de mais, por razões de ordem pessoal: deixei de ter funções políticas, mas não admitirei tentativas de enxovalho. Venham elas de onde vierem.

DESAFIO

Tendo em conta o teor, absolutamente lamentável, das declarações do Presidente dos Bombeiros Voluntários de Moura à Rádio Planície, nas quais critica o executivo camarário a que presidi, venho deixar o seguinte desafio:

* Que o Dr. Jacinto Correia divulgue o teor dos dados que comuniquei aos Bombeiros acerca da aquisição de novos equipamentos e viaturas (na íntegra, sff);

* Que o Dr. Jacinto Correia divulgue o valor exato do montante do apoio concedido pela Câmara Municipal aos Bombeiros entre outubro de 2013 e outubro de 2017;

* Mais difícil, decerto, que o Dr. Jacinto Correia repita o elogio que fez à Câmara Municipal no dia 15 de outubro de 2017, durante as comemorações do 70º aniversário da associação.

Depois do desafio, um pedido:
Não partidarizem os Bombeiros... Não usem os Bombeiros dessa maneira.

MEMÓRIA AMARELEJENSE

Regresso quente à Amareleja. Dois dias de regresso, com passagem pela Feira do Vinho e com muitos reencontros. Dias felizes e descontraídos.

De volta a Mértola, reparei que nunca publiquei, aqui no blogue, o texto que escrevi para o álbum fotográfico do José Manuel Rodrigues. É altura de o fazer.

No dia da apresentação, em setembro passado, disse que o meu texto era uma declaração de amor a um sítio. Mantenho essa ideia.







AMARELEJA

A terra é quente, as pedras escaldam. O calor molda o espírito e ajuda a afeiçoar o vinho. É assim o verão na Amareleja. Quando chegar o outono, o calor será um pouco menos. Haverá vindimas e depois virá o frio e depois haverá vinho novo. Por agora, o céu é quase sempre azul. Entre o céu e a terra se fez a Amareleja. Entre o céu e a terra se faz o vinho da Amareleja.
O céu é imenso e dele cai, a pique, o sol. Sol e terra ajudaram a refazer, em tempos não muito remotos, a Amareleja. Do sol veio a ligação a um mundo tecnológico. Fotovoltaico, renováveis, megawatts. Palavras estranhas e de som estrangeiro tornaram-se familiares. À saída da aldeia, uma floresta de tecnologia lançou o nome da Amareleja pelos quatro cantos do mundo. O olival de ferro tornou-se imagem de marca. Central e Amareleja fundem-se num só espaço. Como outrora quase se disse, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Do sol vêm o calor e a energia. Do sol e da terra vem o vinho. O sol e o vinho são as imagens fortes da aldeia.
A aldeia é um sítio e muito mais do que um sítio. A Amareleja espraia-se em linhas longas e contínuas, Ferrarias abaixo, Alto de Bombel acima. Não há declives fortes ou cortes abruptos. A Amareleja estende-se num suave ondular, numa geografia toda feita de recortes e de imprecisões. Como suave é o andar das mulheres com quem nos cruzamos. O poder ordenador das leis e do urbanismo chegou tarde às terras mais escondidas. As amarelejas do interior habituaram-se a tomar conta de si. O ziguezaguear das ruas e a improvisação dos limites são a marca de sítios assim.
Há hoje mais casas que não são habitadas e menos gente a viver aqui. Os 6500 habitantes de 1950 são hoje pouco mais de 2500. A Amareleja tem hoje extensões na Amadora, na Cova da Piedade, no Barreiro e converteu-se num sítio mítico para os que lá estão. Os que partiram um dia, os seus filhos e netos, regressam no verão ao ponto de origem. Por esses dias cumprem-se roteiros sentimentais pelas ruas da vila, “ali viveram os teus avós”, “naquela casa nasci eu e na rua ao lado a tua mãe”. Essa memória feita palavra será um dia esquecida.
Na Festa da Santa Maria, em pleno verão, tudo é mais intenso. Tudo se vive com calor. É tanto o culminar de um ano de trabalho como um ponto de encontro entre os amarelejenses de todas as partes do mundo, tanto uma manifestação sagrada como a expressão do mais belo paganismo. A animação é, sobretudo, noturna, as celebrações religiosas têm lugar durante o dia. O paganismo casa com a lua, a crença fá-lo com o sol. O sol é uma das imagens de marca da Amareleja. O vinho é outra. Acrescentemos agora a lua da Amareleja, que é também clara e luminosa e diferente das demais.
A austeridade impera. No centro há alguns palacetes, das famílias mais ricas da Amareleja. As casas são simples. Um pouco menos simples e um pouco menos austeras, nos dias de hoje. Mas antes eram quase todas iguais. Fachada com porta e uma ou duas janelas, num primeiro jogo de simetria. Corredor, quartos de um lado e do outro, cozinha, quintal ao fundo. Taipa e caniço, telha mourisca. Cal por toda a parte. Nas casas de mais posses, faziam-se abóbadas. Um luxo de frescura ou de calor, consoante a estação do ano. A geometria das abóbadas é feita de um fio e de um prego. Uma matemática do quotidiano que desafia fórmulas e cálculos. Há conhecimentos assim, sem registo nem compêndios. São coisas assim que explicam a alma dos sítios.
A decoração das casas é simples e austera, também. A memória das famílias espalha-se pelas paredes e pelos móveis. Há fotografias de casais jovens. Sentados à camilha e com o peso do tempo, são agora menos jovens os que vemos nas paredes. No corredor de entrada, sobre os móveis, há sempre fotografias. Todos nós temos fotografias dessas em casa, do tempo em que se faziam fotografias no estúdio, todos quietos e aprumados, penteados e vestidos para uma grande ocasião. Agora já ninguém vai ao fotógrafo, porque esse ritual desapareceu e assim já ninguém retrata a alegria de tempos idos. Os retratos de família das casas da Amareleja, assim congelados no tempo, são o retrato de todos nós. Daquilo que fomos e daquilo que mais tarde seremos. Os retratos das meninas de sorriso tímido e rodeadas de irmãos mais novos ou mais velhos, rindo descaradamente para o fotógrafo, passará um dia para sobrinhos e para sobrinhos-netos. Até que estes, esquecidos de quem são aqueles grupos de ar feliz, os metam, sem pena e levando consigo a felicidade de tempos idos, na caixa do esquecimento.
A aldeia é terra de sentimentos fortes: amor, paixão, amizade, ódio, vingança. É a paixão dos fortes feita rua e gente. Dos árabes ficou a al-kunya. A alcunha. E um certo sentido tribal. Há sítios onde o tempo parece ter parado. Há lojas que armazenam as memórias da aldeia.
A Amareleja é a terra do que nunca foi e do que já deixou de ser. A torre do relógio não foi concluída, a esplanada mercedes, sítio de tantas vidas e de tantas recordações, é um cenário de ópera, sem músicos nem cantores nem público. E, contudo, a música está presente em toda a aldeia. É uma das suas marcas mais fortes. A banda é centenária, as vozes são milenares. Os grupos corais, improvisados ou de aparato, passam de geração em geração. Os músicos da filarmónica sucedem-se, em registo semelhante.
O solo é duro e cizento, duro e ingrato. A generosidade do sol fertiliza a terra e fertiliza o vinho. O processo dura meses e há-de ser consumado nas tabernas. As tabernas são a arquitetura viva do vinho. As leis, os bons costumes, a decência pequeno-burguesa acabaram com as tabernas de outrora. Restam, em memória, algumas adegas com talhas opulentas e com um contraluz de sombras chinesas. Resta o silêncio musical das tabernas, com o som dos copos nos tampos de mármore e o sussuro das vozes. Resta o traço dos que passaram pela Amareleja. Johannes Vermmer parece ter estado no Vela e desenhado o chão, um dia, há muito tempo. No Vela estão Vermeer e o vinho dos amantes de Baudelaire.
A Amareleja é filha do cantar dos poetas andaluzes, da sua paixão pelo vinho e pelas mulheres. Há requebros mediterrânicos nas romarias, nos cavalos, nos passeios ao campo, nos touros que são corridos. A carroça de flores de papel em muitas cores que, à força de mula, vi um dia dar voltas e mais voltas à esquina da rua Umar al-Mukhtar, em Tripoli, podia estar na Amareleja, na nossa primavera. Quase com os mesmos rapazes e com as mesmas raparigas. A aldeia podia estar mais a sul ou mais a norte. O espírito seria o mesmo, decerto.
A aridez também seria a mesma, porque o clima é seco, e também ele ajuda a temperar o caráter. Quase nunca chove na Amareleja. Mas quando chove, a água cobre tudo. A água, que quase não corre nesta terra de sol, de vinho e de belas mulheres, quase tudo cobre nesses dias. Os barranquinhos, o regato, vão buscar o nome a essa água rara e súbita.

Entre o céu e a terra se fez a Amareleja. Entre o céu e a terra se faz o vinho da Amareleja, que neste livro tantas vezes encontramos. E que tão presente está na imagem da aldeia. Partamos com o vinho em direção a um céu feérico. Não esqueçamos nunca o poder mágico da terra e do céu feérico sobre nós.

domingo, 10 de dezembro de 2017

QUANDO O NORTE DA EUROPA ENCONTRA O SUL DA EUROPA

É um dos projetos de resultado mais difícil de definir. Há um bom par de anos decidiu-se reconfigurar um dos eixos principais do Bairro da Salúquia, em Moura. A Rua de Sagres, a Rua Rainha D. Leonor, o Largo da Salúquia (o nome oficial não é esse, bem sei) e a Rua D. Dinis teriam outro tratamento e outra configuração. Assim se fez. O largo, que era sítio de passagem de carros, passou a ter outra vida. O projeto não foi consensual, mas acho, convictamente, que o largo ficou a ganhar.

Uma coisa não resultou: o largo ter ficado de nível. Ou seja, nem barreiras, nem passeios. Algo muito frequente no norte da Europa. Espaço de circulação das viaturas, local de passagem dos peões, zona de lazer coexistem sem separações visíveis. A forma de as usar depende mais da perceção do cidadão do que aquilo que se impõe. Fácil? No norte da Europa, sim. No sul da Europa, não. Somos diferentes e a nossa mentalidade é distinta da nórdica.

Por isso, a lógica nivelada do Largo da Salúquia foi um falhanço. O espartano rigor setentrional deu lugar à balbúrdia mediterrânica. A improvisação urbana do largo é o reflexo físico da nossa mentalidade. Daquilo que somos.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

TOP 10 (2008/2017)



Eis o top aqui da casa.

1. REAL MADRID OU A MÁQUINA TRITURADORA (23.05.2010) 10003
2. TODA A POESIA DE UMA CARTA ANÓNIMA (6.5.2017) 7317
3. AINDA DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE O PRÓS E CONTRAS (2.11.2017) 7054
4. UM NOVO FUTURO PARA O ANTIGO CAMPO MARIA VITÓRIA (9.09.2016) 4421
5. QUAL A MOURA QUE QUEREMOS? - nº 4 (10.1.2017) 4402
6. AUTÁRQUICAS/2017 - JOSÉ MARIA PÓS-DE-MINA É CANDIDATO EM MOURA (10.05.2017) 4333
7. QUANDO O ARDILA SECOU (20.11.2017) 3198
8. TEASER EM QUATRO RODAS (12.12.2016) 3121
9. DOULEUR DE CORNE (11.07.2016) 3096
10. UM NOVO CARMO (10.07.2017) 2886

Qual a dominante? Moura, na sua componente autárquica. Está presente em todos os textos, com exceção do primeiro e do nono. Que são sobre futebol...

NOVE

E assim se passaram nove anos. Daqui a um ano o blogue faz 10 anos... Quase me parece impossível...

Eis o balanço.

Visitas :
84.400 - 1º ano
111.330 - 2º ano
105.300 - 3º ano
121.598 - 4º ano
91.548 - 5º ano
73.173 - 6º ano
60.305 - 7º ano
63.140 - 8º ano
61.007 - 9º ano
total: 771.801


Dispersão geográfica dos visitantes do blogue:
44 - Europa
41 - Ásia
40 - África
24 - América
04 - Oceânia
total: 153 países (mais 17 territórios) de cinco continente



São nove retângulos desiguais. Um por ano. É a composição C, de Piet Mondriaan, pintada em 1935.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

QUANDO O PATRIMÓNIO FICA TREMIDO

Foi uma longa, luminosa e agradável jornada matinal. A carreira leva 90 minutos (Beja - Neves - Baleizão - Serpa - Brinches - Pias - Moura). Tempo e mais tempo para olhar as coisas em volta. A páginas tantas, passamos por um conhecido sítio arqueológico. Ao contrário de um caso recente, este passou ao lado das notícias. Só vemos oliveiras. Da villa romana já nada resta. O sítio, com ocupação entre o período imperial e a época califal, foi afogado por um olival super-intensivo. Não houve medidas de prevenção nem, provavelmente qualquer aviso prévio. Era uma estação arqueológica extraordinária, a meio da encosta, no meio de boas terras e com água abundante. Era, foi, passou, aconteceu. Conjugamos os verbos no passado.

Fiz uma fotografia. Ficou tremida. Como o Património.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O EGIPTO MERTOLENSE

Recanto da antiga Barbearia Baiôa, entre o Festival Islâmico e o Natal que aí vem. Imagens ao jeito dos oásis. Imagens bíblicas. Como nas fotografias de George Rodger, de Rudolf Lehnert ou de Ernst Landrock.


A PALM-TREE

A single fir-tree, lonely,
on a northern mountain height,
sleeps in a white blanket,
draped in snow and ice.

His dreams are of a palm-tree,
who, far in eastern lands,
weeps, all alone and silent,
among the burning sands.



Heinrich Heine (1797-1856) escreveu este poema nos seus tempos de juventude. Nunca visitou o oriente, embora o seus fascínio pela cultura árabe fosse evidente.

A DIMENSÃO DO TEMPO NO UNIVERSO TELEMOVELIANO

Mensagem recebida hoje, às 8:24:47.

Ou seja, poupando energia temos menos autonomia que não poupando energia. Viagem rápida à twilight zone.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

QUANDO OS INVESTIGADORES VÃO À WIKIPÉDIA...

Em 1959, Cuba, o segundo maior produtor mundial de açúcar, não era exactamente um país pobre. Tinha, por exemplo, mais televisões per capita do que a Itália, e mais estradas por quilómetro quadrado do que Portugal.

Dados destes estão espalhados pela net. No entanto, quem escreveu estas palavras foi um investigador reputado, com doutoramento feito numa respeitada universidade. Não é a exatidão dos dados que está em causa. Mas a distorção da verdade. Apresentar as televisões e as estradas não me parece mal. Mas é importante confrontar esses dados com o desemprego, a corrupção, o analfabetismo, os cuidados de saúde, etc. etc. Um exercício básico? Sim. Há quem o prefira esquecer. Como os que elogiam os dados económicos e financeiros do marcelismo, esquecendo o resto. A falta de infraestruturas, de saneamento básico, os bairros da lata etc. etc. A escola é a mesma.

O EGIPTO, SEGUNDO BIEKE DEPOORTER

O tratamento da cor e da luz fazem lembrar outro grande fotógrafo, Jean-Marc Tingaud (n. 1947). O trabalho da jovem Bieke Depoorter (n. 1986) tem, contudo, um vincado cariz social. De tal modo que preferiu sacrificar a limpidez das imagens aos comentários que sobre elas lhes foram enviados. O catálogo parece um caderno de apontamentos, estranho e denso de palavras.




A CIDADE

Disseste; “Vou partir para outra terra, vou partir para outro mar.
Uma outra cidade melhor do que esta encontrar-se-á.
Cada esforço meu um malogro escrito está;
e é – como morto – enterrado o meu coração.
A minha mente até quando irá ficar nesta estagnação.
Para onde quer que eu olhe, para onde quer que eu fite por aí
ruínas negras da minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei e dizimei e dei em estragar”.
Lugares novos não vais encontrar, não encontrará outros mares.
A cidade seguir-te-á. De volta pelos caminhos errarás
os mesmos. E nos bairros os mesmos envelhecerás;
e dentro destas mesmas casas cobrir-te-ás de cãs.
Sempre a esta cidade chegarás. Para os noutra parte – esperanças vãs –
não há barco para ti, não há partida.
Assim como dizimaste aqui tua vida
neste pequeno recanto, em toda a terra a vi estragares.

Konstandinos Kavafis (Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

É impossível não evocar Kavafis, mesmo que a realidade de que ele fala não fosse exatamente esta, posto que o seu Egito também não era este. Mas uma certa ideia de abandono, e de desesperança, está presente em muitos dos seus textos. As fotografias de Bieke Depoorter falam também de cidades, de abandono e de deseperança. Ali, a Primavera Árabe não chegou.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

PLANO DE SALVAGUARDA: MODO DE REFAZER

Mais de duas décadas volvidas sobre a sua publicação, eis que se começa a retomar o dossiê Plano de Salvaguarda de Mértola. Independentemente da sua vigência legal, todos os planos (e todos os projetos, bem entendido) têm um prazo de vida. Mértola mudou muito em 20 anos, e aquilo que o plano retrata já não corresponde, felizmente, à realidade.

Por momentos, pareço regressar ao já longínquo ano de 1987.  Foi a altura em que se lançou o Plano de Salvaguarda de Moura. Por iniciativa (oh, céus!, estas coisas aconteciam nesses tempos...) da Divisão Sócio-Cutural. As perspetivas agora são outras. A experiência de trabalho permitiu acumular informação. E, felizmente, a hostilidade que a expressão Plano de Salvaguarda em tempos suscitava já se desvaneceu. Até porque o trabalho é/tem de ser mais pedagógico que policial.


domingo, 3 de dezembro de 2017

DUNAS DO MAR DO NORTE

Taking root in windy sand
    is not an easy
way
to go about
    finding a place to stay.

A ditchbank or wood's-edge
    has firmer ground.

In a loose world though
    something can be started—
a root touch water,
    a tip break sand—

Mounds from that can rise
    on held mounds,
a gesture of building, keeping,
    a trapping
into shape.

Firm ground is not available ground.


Estas dunas de Mondriaan datam de 1911. Não é neste cenário pós-impressionista que pensamos quando lemos o nome de Mondriaan, sempre mais associado às telas de expressão geométrica que marcaram a fase final, e a mais popular, da sua carreira. Curiosamente, foi este trabalho, mais que o que os do movimento De Stijl, que me chamou a atenção na tarde fria de outono. Uma questão de contexto, certamente.

Poema de A. R. Ammons (1926-2001).

ARTE URBANO-RURAL NOS CORVOS

Como diria o meu amigo Ivan Valério, com tanto garrafão até podia ser na Salúquia. Mas não, esta quase instalação está na estrada Moreanes-Corvos (concelho de Mértola), mesmo à entrada nesta última localidade. Uma floresta de garrafões de plástico dá o toque avant-garde a uma horta. Devem ter substituído os espantalhos de outrora.

sábado, 2 de dezembro de 2017

PEER REVIEW

Numa reputadíssima universidade europeia foi descontada pontuação na avaliação de trabalhos de licenciatura, por estes terem recorrido a artigos sem peer review. O facto foi-me narrado por três alunas. Embora não desvalorize o sistema de peer review (no qual os trabalhos  de investigação são avaliados por "pares" do mesmo ofício), embora eu já tenha feito a chamada arbitragem para revistas portuguesas e espanholas, embora já tenha tido artigos meus avaliados por esse método, embora eu faça parte de um  painel de avaliação nacional que atribui notas a projetos, embora tudo isso, acho que se está a ir longe de mais...

Coordenei, durante mais de 20 anos, uma revista onde, de forma deliberada, rejeitámos peer reviews e normas bibliográficas obrigatórias. Tal como nos recusámos a balizar as áreas do conhecimento, entendendo-se arqueologia medieval como algo mais que escavações e materiais. Ouvi das boas. Foi vaticinada vida curta à revista (dois número, garantiu-me um "especialista"). Etc. Já lá vão 25 anos... Já não sou coordenador da publicação. Que continua de boa saúde. Livre, enérgica, tolerante para com os novos valores, anárquica e sem peer reviews.

A despeito da especificidade dos temas que as moças tratavam, numa seleção de bibliografia não deveremos ser tão estritos e rígidos que rejeitemos a aparente "menoridade" de alguns trabalhos. Umberto Eco explicou isso, num livro muito popular nos meus tempos de estudante. Fez-se o contrário e a soberba esmagou a humildade. Foi isso que aconteceu, nada mais.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

PCP MONÁRQUICO


A notícia (chamemos-lhe assim) vem no "Diário de Notícias". Tem direito a chamada de capa. Sem que se apresente depois um só dado a sustentar a afirmação. Sou levado a pensar que foram à página do PCP na net e se deixaram entusiasmar com o bigode à Romanov do meu camarada João Ramos...

A TRAGÉDIA DO "SAN JUAN"

O desaparecimento do submarino argentino "San Juan" não esteve no topo dos noticiários portugueses. Estamos demasiado longe, fisicamente.

Fui, ainda assim, seguindo os aspetos mais relevantes das tentativas de localizar o submarino. Agora, que a tripulação é dada como perdida, são ainda mais importantes as explicações dadas por um engenheiro naval que conhecia bem o "San Juan". A entrevista foi publicada no "Clarin" de ontem. Um relato terrível, que pode ser lido aqui.

O NASCIMENTO DE UM SANTO


As paisagens dos nossos campos e das nossas cidades, vilas e aldeias estão cheias de nomes de santos hoje desaparecidos do calendário oficial da igreja. Muito pouco se sabe sobre a maior parte deles: Santo Amador, São Barão, São Brissos, São Matias, Santo Aleixo, São Sesinando ou o extraordinário São Facundo fazem parte das tradições mais antigas de uma religiosidade popular onde o sagrado, o profano e o mágico se misturam. São santos sem presença no martirológio (catálogo dos mártires e santos), mas cuja existência e devoção não têm discussão para as comunidades que os acolhem.

As suas origens são obscuras e sempre envoltas em lendas, muitas vezes de contornos improváveis. Alguns deles, como São Facundo ou o São Barão, venerado nos campos de Mértola, estão certamente ligados a atos ou cultos de fertilidade. São os verdadeiros santos do povo, de uma devoção local que não desaparece. Em certos casos, o santo não tem representação física e elege-se outro com imagem e percurso reconhecido. É o que acontece em Santo Amador, onde se escolheu outro mártir (Santo Evaristo) para dar representação física ao que o não tinha.

Na transição do mundo romano para a Idade Média, a vida de homens cujo percurso os destacara de modo positivo numa comunidade era continuado após a sua partida deste mundo. Oferendas e orações faziam parte desse ritual, praticado junto ao túmulo. Daí à santificação era um passo curto. Ao longo da Antiguidade Tardia, generalizou-se a prática das sepulturas “ad sanctos”, junto aos santos. Procurava-se a proteção divina, das mais variadas formas. Os mais ricos, claro, levavam vantagem, e ficavam dentro das igrejas. Os outros procuravam fica o mais perto possível do espaço consagrado. Queriam, desse modo, ficar ao abrigo do Mal.

Para surpresa dos meus alunos de “Arqueologia Medieval” costumava dar um exemplo vivo de um fenómeno paralelo ao da santificação de um túmulo. E mostrava a sepultura de Jim Morrison, vocalista e mentor dos Doors, prematuramente falecido. A sua sepultura, no Père-Lachaise, em Paris, é objeto de peregrinação. Não se reza, mas canta-se junto à sepultura. Já lá vi devotos deixarem maços de cigarros, charros e garrafas de bebida intactas (tal como no antigo Egito se deixava comida para o defunto percorrer o mundo das trevas). Há inscrições de quem ali esteve e benfazejas frases de apoio ao ídolo. É Jim Morrison um santo do século XXI? Nem tanto. O exemplo é anacrónico? Também não. Há gestos e atitudes que se repetem. Século apos século. A proximidade dos que marcaram a nossa vida tende a ser prolongada pelo tempo. Do modo festivo que a sua vida justificava. Com o tempo, nascia o mito. E, depois, o santo.

De tal modo assim é que, nos últimos anos, não é possível chegar mesmo junto ao túmulo de Jim Morrison. Foram colocadas cancelas protetoras. Como as que, nas basílicas, separavam o altar do espaço restante.

Crónica dedicada ao amigo Xico Mota, da Amareleja, que há poucas semanas esteve no Père-Lachaise.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

OUTRO FILHO DESCONHECIDO

A situação não é inédita. Em fevereiro de 2016 já me acontecera uma coisa assim (v. aqui). Desta vez, a surpresa foi diferente. Tinham-me pedido este texto, mas não me recordava de o ter enviado. Muito menos sabia que tinha sido publicado. A obra, com financiamento comunitário, nunca me chegou às mãos. Ao percorrer, ontem, os catálogos da Biblioteca Nacional dou com o título do texto. Surpresa! Peço a obra. Pois é, lá estava o trabalho sobre Moura e Serpa entre a Antiguidade Tardia e a Islamização. Limitei-me a tirar a nota bibliográfica, para acrescentar ao currículo. Voltei a solicitá-lo hoje, para o retrato. Tempus fugit, e só deu para isso, no meio de outras consultas, destinadas a concluir um livro, que iniciei há 20 (vinte, isso) anos...

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

SOUALA


Ici venu, l'avenir est paresse.
L'insecte net gratte la sècheresse;
tout est brûlé, reçu dans l'air
a je ne sais quelle sévère essence...
La vie est vaste, étant ivre d'absence,
et l'amertume est douce, et l'esprit clair.


De Le cimetière marin, de Paul Valery

A fotografia foi feita no final da primavera de 2002. Dia 13 ou 14 de junho. Sei da data porque íamos a caminho de Beja, na Tunísia. Parámos num sítio no meio do nada. Havia uma placa. Tenho a certeza de ter lido SOUALA.

Fotografámos este bonito sítio. Um pequeno cemitério, numa suava elevação, com três palmeiras. O que é curioso é não consigo encontrar qualquer referência ao local... Souala "sumiu-se". Espero lá voltar, um dia. Porque o sítio existe. Assim me parece.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

RONDA NOTURNA

As traseiras, como em Rear window, mas mais pacíficas. A Amadora à noite. Silêncio total e uma ou duas luzes. E Drummond de Andrade.

Repeti a fotografia com a M6. Rolo de 400 ASA, abertura de 2.0, exposição 1:15. Deve ficar bonita, deve... A minha amiga Paula Campos não vai achar graça quando lhe pedir uma ampliação.


PASSAGEM DA NOITE

É noite. Sinto que é noite 
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
 
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!