segunda-feira, 17 de agosto de 2009

MOURA - CRÓNICA DA FESTA

QUINTA-FEIRA
Quando amanhã chegares, já a festa estará a começar. Não imagino o que terás pensado que se irá passar, quando me disseste que querias vir. Talvez não te interessem demasiado as motivações profundas, os actos de fé e os gestos profanos, a ti que talvez queiras apenas espreitar uma cidade do interior e que quererás fazer em quatro dias e em quatro noites todos os caminhos da festa e descobrir um pouco de uma Moura que só dura estes dias do ano.
Das duas cidades que existem conhecerás apenas uma. Verás apenas a Moura que encontramos nas ruas, nas praças e nos largos, a do dédalo que parte do castelo e que se espraia à sua volta numa cadência que é a da passagem dos séculos. Em 800 anos, quando começou a estender-se para lá das primeiras muralhas, a cidade alastrou a um ritmo ora lento, ora rápido. Da Mouraria ao Largo de Santa Clara vão 500 metros de um lento e laborioso crescimento. Depois, o tempo acelerou-se, a cidade cresceu cada vez mais depressa, saltando muralhas, ocupando hortas já sem préstimo e criando subúrbios operários.
Hoje, antes da festa começar, há nesta cidade ruas por agora desertas e batidas pelo calor e onde poucos se atrevem a passar durante a maior parte do dia. No centro de Moura, a estas horas sem gente, só as casas enchem as ruas. É uma Moura só de fachadas a que agora se mostra, com tanto de palácios senhoriais como de habitações populares, às vezes perto umas das outras, por vezes mesmo lado a lado, numa mescla de arquitecturas sem reflexo na vida social. São casas e mais casas em ruas estreitas que desembocam a espaços em largos onde hão-de começar mais ruas e mais casas.
Para lá das paredes, feitas de solidez e protegidas, ano após ano, por sucessivas camadas de cal, já não veremos as abóbadas e as taipas, os caniços e as telhas mouriscas. Dentro dos muros das casas fica a segunda cidade, mais longe das ruas agora desertas. No íntimo das casas e dos palácios há esses mundos privados que não chegaremos a conhecer. Imaginaremos os corredores e as salas, a escadarias e os poços nos pátios. Sentiremos, sem ver, nesses sítios afastados dos olhares indiscretos, a suavidade e o silêncio.
Desta segunda cidade, dos detalhes do seu quotidiano, das vidas que nela se tecem, nada sei e nada te poderei contar. Ficaremos, assim, pelos espaços públicos, onde em breve a festa começará e onde o deserto irá ver o seu lugar ocupado por pessoas que parecem ter decidido, todas ao mesmo tempo, tomar as ruas de assalto.
Porque só chegas amanhã, não verás nem a procissão das velas desta noite, nem o ultimar das iluminações, nem sentirás aquele torpor um pouco tenso que é o começo de todas as celebrações.
A procissões nunca foste e acharias talvez estranho o cortejo em marcha lenta que esta noite se irá cumprir por um dos bairros de Moura. A cada ano cabe um bairro, ruas limpas e caiadas ainda mais que nos outros dias do ano só para a procissão passar.
A maior parte dos devotos processionários serão mulheres, empunhando uma pequena tocha, que lhes irá iluminar as faces e as mãos e transformar em espectros silhuetas, ruas e paredes. Durante o percurso o som dos passos e dos sussurros será quase sempre abafado pelos cânticos e pela voz do cura, que não parará de circular todo o tempo. O caminho é curto e em breve não estará ninguém naquelas ruas onde há pouco se via a procissão passar.
Não terás perdido grande coisa da animação quando amanhã chegares no expresso que irá descarregar poucas dezenas de pessoas no centro de Moura. Hoje vem menos gente nos transportes, combóios já não há e carros quase todos têm. Muitos dos que por estes dias arribam aqui são os exilados do destino que a vida um dia mandou para a Cova da Piedade, para a Amadora ou Moscavide. Com a festa em Julho estarão também mais deportados de Lausanne, de Genève ou doutros cantos do mundo. Vêm sempre e juram sempre que aquele será o último ano lá fora. Quase nunca é. E muitos voltam cada vez menos, vendidas as casas que foram dos pais e afastados a cada dia os parentescos.
Quando amanhã chegares, já a festa estará a começar. E tu, que apenas quiseste vir conhecer uma festa no interior, irás, em quatro dias e quatro noites,  tentar andar todos os caminhos de Moura.
 
SEXTA-FEIRA
Agora, as comemorações são em Julho, mas em tempos a festa era no fim do Verão. Depois de quatro dias de agitação, a cidade calava-se e recolhia-se. A seguir àquele estertor rápido o movimento acalmava e as noites de Moura adormeciam até à Primavera seguinte. As noites de hoje já não são tão bisonhas como as de ontem e não sei se é melhor ou pior assim. Hei-de também contar-te as histórias de festas arruinadas por bátegas outonais e as eternas discussões sobre a melhor data para honrar a padroeira. Não foi fácil chegar aqui, porque onde há três mourenses haverá sempre três opiniões.
Quando o dia nascer as iluminações estarão apagadas e o movimento das ruas terá a calma de quase sempre. Perderás, assim, o primeiro acordar da festa, a expectativa do que está para vir, as horas mortas da sexta-feira.
Como só chegas à tarde não ouvirás a primeira alvorada, às oito da manhã. Começa-se sempre desta maneira, como se fosse preciso sacudir os espíritos e avisar toda a gente que tudo está a começar.
Não verás, também, os que agora ainda preparam a festa e que ultimam tudo à pressa, cada vez mais depressa. É um emaranhado de fios e cabos, ferros e encaixes, parafusos e lâmpadas. À hora do começo tudo estará pronto, embora pareça sempre que não.
Quando logo chegares irei buscar-te ao expresso e correremos num passo rápido pelo centro de Moura até ao sítio onde, oficialmente e com moderada pompa, a festa começa. Virá o governador civil, que será aguardado pelas autoridades locais (sinónimo da comissão de festas, dos presidentes da câmara, da assembleia, das juntas, dos vereadores, dos representantes dos colectividades e das forças da ordem). Virão também as bandas e os escuteiros, que farão as vezes de guarda de honra. Todos cumprimentam todos e murmurarás que, paramentados de fato e gravata, te parecem tão iguais que não os consegues distinguir uns dos outros.
A cerimónia é a mesma, melancolicamente a mesma, desde há 30 anos. Passou revoluções, a agitação de uns dias e a calma de outros, torneou dias de chuva e crepúsculos de calor e não mudou nem um pouco. Antecipo, por isso, o que se vai passar. Haverá foguetes, mais cumprimentos, as luzes coloridas acendem-se e, sem perder tempo, desfilarão todos pelo centro de Moura até à igreja da padroeira.
A igreja da padroeira é, já o saberás então, a de Nossa Senhora do Carmo, mandada fazer em terrenos outrora isolados do mundo e que hoje estão quase no centro da cidade. O convento é sítio antigo de pastores de almas que, com o passar dos séculos, juntaram ao domínio espiritual um sucesso temporal digno de registo. As posses das carmelitas iriam permitir obras e renovações, cujo resultado agora admiras enquanto nos aproximamos devagar.
O edifício tem duas entradas - a igreja, de frente, o convento, à esquerda - e é difícil decidir qual delas gostaríamos que fosse a principal. Depois, lá dentro, a impressão inicial esbate-se um pouco, como se todo o engenho se tivesse consumido a imaginar e a construir as duas fachadas.
Na igreja, as luzes festivas escondem um pouco os almofadados da frontaria. O que ali se vê é a obra do século XVI, que esconde quase por completo os poucos vestígios que ficaram do pequeno templo medieval, substituído quando os negócios terrenos permitiram um pouco mais de grandiosidade e um pouco mais de ostentação.
À esquerda, estão as três aberturas da galilé, as pedras de granito a darem vida e contraste à cal. Pela frontaria de recorte clássico entrava-se em tempos para o hospital, que hoje já não é ali. O edifício está, por agora, fechado e não poderás ver o claustro, que é bonito e tem plantas no meio. Gostava de poder mostrar-te o silêncio das arcadas, as histórias e os segredos que por lá se escondem, mas desta vez não será.
Entremos, por isso, na igreja. Por ser festa tem mais movimento que noutras alturas. Parece um estaleiro silencioso, com a azáfama contínua dos que preparam as cerimónias religiosas, entre velas, alfaias e imagens. Se tudo gira à volta do pároco, a nossa atenção irá para a imagem da padroeira, ao fundo da nave norte, e para o altar, onde um grupo de devotas ensaia os cânticos que hão-de repetir vezes sem conta por estes dias.
Saiamos agora e subamos até ao centro, onde está a começar aquele ritual sem hora marcada dos reencontros, dos amigos que há muito se não viam, da apresentação dos filhos que só cá nasceram, que vivem longe e que assistem, entontecidos, ao desfilar de amigos dos pais e da família. Apertam-se mãos, dão-se abraços, beija-se e volta-se a beijar.
Ficarás um pouco de lado, meio à margem, apesar das minhas insistências nem por isso muito convictas. Vejo-te à distância, rodopiando devagar enquanto olhas em volta os vendedores de balões e de algodão doce, as barracas das farturas e as mesinhas onde o polvo, mais queimado que assado, espera compradores.
Antes da noite acabar, o palco em frente à Câmara conhecerá a primeira animação. Os grupos corais sucedem-se e tu observas, numa curiosidade estrangeira, que cantam todos da mesma maneira. Ponho ar de ultraje e tentarei explicar-te, sem grande êxito, algumas das subtilezas do cantar alentejano.
Depois, muito lentamente, a praça irá esvaziar-se. Quase nada irá mexer até ao nascer do sol. Talvez passe um ou outro carro, de algum boémio mais persistente. Talvez a cruzem os que ficam sempre para o fim, aqueles que têm receio que todo o tempo não seja suficiente nos quatro dias. Depois, haverá cada vez menos sons. Depois nada. Até o silêncio ser total.
 
SÁBADO
Começa o dia com a largada dos touros. No final, vais dizer-me que esta parte te pareceu uma sensaboria e sinto-me tentado a quase concordar.
A largada é numa avenida que tem casas de um lado e a muralha que antes defendia Moura do outro. Nos passeios, frente a frente, há laranjeiras. Umas servirão para abrigar os espectadores do sol que começa a fustigar as ruas. Outras serão burladeros postos ao alto, ao serviço dos mais aventureiros. De um lado da avenida, o do passeio, circula-se com esforço, entre a parede das casas e as vedações de madeira, feitas com toros laboriosamente atados com arames. É nesse corredor que se amontoam os que, e somos quase todos, não querem afrontar as feras de perto.
A avenida está dividida em três sectores, um para cada bicho. Evita-se assim que os touros passem o tempo colados uns aos outros, desencorajando ainda mais os candidatos a matadores. Poucos tentarão o tirocínio de toureiro ou de forcado e, assim, os animais andarão toda a manhã de um lado para o outro, num atarantamento sem fim.
Boceja-se e já se bebe cerveja. As quantidades vão surpreender-te. A mim também, que noutros tempos não se bebia assim, fora de horas e sem conta.
Alguns, de câmara de vídeo e máquina fotográfica, esperam que aconteça alguma coisa, para mais tarde mostrarem aos amigos e colegas. Mas não há nada para ver, com os magotes encostados às tábuas e os touros sempre num trote desengonçado até à hora do almoço.
Tento nessa altura encontrar-te uma daquelas tabernas em que queres entrar como se quisesses conhecer um museu. As antigas, soturnas e silenciosas, são cada vez menos. Dantes, há sempre muitos dantes nestas crónicas, as tabernas tinham daquelas portas como nos filmes do oeste. Rangiam muito, para trás e para a frente, quando as empurrávamos e havia sempre um balcão de mármore, paredes caiadas em tempos, cobertas por cartazes do Benfica de Eusébio, do cantor de charme Tony de Matos e do grande matador Armando Soares. À volta de mesas quadradas, forradas com oleado aos quadrados vermelhos e brancos, havia sempre homens de ar sombrio pregados a cadeiras de madeira. O interior era sempre o mesmo e os homens também.
É a uma dessas que queres ir, um sítio imaginado mas que talvez já não exista. Entramos numa das coutadas que ainda resiste e ficarás supreendida com a indiferença que despertas. As novas gerações fizeram em cacos os velhos preconceitos e as mulheres mais jovens já entram nas tabernas. Bom, em quase todas. Outros tabus antigos ainda persistem e por isso não ficaremos ao balcão. Com suavidade, somos conduzidos mais para dentro, para longe, porque nos dizem que assim estaremos mais cómodos e mais à vontade.
Na sala de fora já se canta, num tom avinhado e alegre. O tempo sobra neste começo de tarde. Os perfumes do sul passam sobre a mesa enquanto bebemos até o coração aquecer. Falaremos da vida e da festa, de tudo e de nada, enquanto espreitas de vez em quando a entrada da taberna, onde não pára o movimento dos passos, dos homens com bonés, dos copos sobre o balcão, despejados devagar mas sem tréguas.
Quando a hora do calor já tiver passado decidimo-nos, enfim, a sair. Ao fim da tarde poderemos assistir à venda da carne dos touros que andaram pela largada. Noutros tempos havia, depois da meia-noite de sábado, uma distribuição gratuita de carne e de vinho à população. Uma autêntica festa báquica. Todos os jovens aprendizes dos prazeres da vida da minha geração faziam os possíveis por ter aproveitamento nessas cerimónias de iniciação, o que normalmente se conseguia com razoáveis classificações e algum esforço físico. Alguns abusos, os bons costumes e o sentido da decência puseram, contudo, cobro à farra, vendo-se as comissões de festas livres daquele embaraço e protegendo-se os mais entusiastas de eventuais manhãs de arrependimento.
À noite não se conseguirá circular na praça principal da cidade. Até ao fogo de artifício, que começará pontualmente à meia-noite, poderemos ainda espreitar o esforço das bandas que tocam no meio de uma algazarra cada vez maior. Desistimos porque o caos tomou conta do centro de Moura e não há música que se faça ouvir nem outra coisa que se possa fazer.
Iremos por isso atrás do grupo coral, rua abaixo até, de novo, à igreja do Carmo. Se quase todos passam pela igreja nessa noite, a visita cantada em honra da padroeira é um momento à parte, carregado de solenidade.
Apreciarás os belíssimos trajes do grupo, embora eles representem agora pouco mais que uma homenagem à vida da lavoura. Já nada é o que foi e os antigos gestos e rituais da terra têm cada vez mais lugar numa distante vitrine de recordações.
Quando eles saem, o silêncio volta por instantes. Há menos gente agora, os homens atrás, como que receosos ou meio envergonhados não se sabe bem de quê. Nestas terras do sul, os homens ficam sempre assim, à distância. As mulheres, quase sempre de mais idade e vestidas de negro, ocupam os bancos da frente. Os nossos cochichos perturbam o silêncio da igreja. Alguém se volta para trás, de ar grave. Nem um músculo da face se moveu mas o gesto e o olhar estão carregados de desaprovação.
Quando saímos, três estrondos recordam-nos que é a hora dos fogos de artifício. Primeiro o solto, lançado da torre de menagem e que irá pejar as ruas mais próximas de canas; de seguida o preso, uma chuva de luz deixando o ar carregado de cheiro a pólvora.
Cumprem-se nessa altura mais dois rituais da festa. Primeiro, assistir ao fogo de artifício. Segundo, comentar que o do ano passado foi melhor e mais vistoso que o deste ano. Sempre as coisas assim foram e não se espera que mudem.
 
DOMINGO
Já é domingo. O dia começa com um baile e acaba com outro. Há menos gente agora, depois do fogo. Os mais velhos já dispersaram, a maioria dos mais novos prefere os bares e a cerveja ao pasodoble e às rumbas. Há mais gente no Largo de Santa Comba a olhar que a dançar e só a espaços o conjunto de baile consegue entusiasmar o público.
Iremos então à procura dos mais novos, dos que estão mais perto da tua idade que da minha. Iremos pelas ruas, sem destino, por entre essa juventude sempre esfuziante que tenho como uma das imagens mais persistentes de Moura e que enche as ruas mais antigas da cidade. Gesticulam, cantam, abraçam-se, beijam-se e divertem-se sem preocupações e com todo o tempo do mundo à sua frente. Tens um pouco de inveja deles e eu ainda mais. Deixamo-nos ir, minuto atrás de minuto, hora após hora, até já ser muito tarde. Ou muito cedo.
É agora a altura de mais um ritual. O de confortar o corpo e o espírito com a ajuda de uma açorda, esse milagre culinário de água, pão, azeite, coentros, alho e poejos. E mais um pouco de bacalhau e um pouco de vinho tinto, para que nada falte. Hesitarás primeiro e elogiarás mais tarde, a meio caminho entre a sinceridade e a cortesia.
Partamos agora, com o resto de um cortejo espontâneo, em direcção à praça de touros. O frenesim parece aturdir-te ou então esse ar de reserva será sinónimo de algum cansaço ou não gostarás de ver outra vez um espectáculo que achas sanguinário e brutal.
Os animais sucedem-se na arena, mal se aguentam nas pernas e querem escapar-se a cada investida dos toureiros. Fogem das pegas e driblam, em golpes quase rápidos, os que os tentam apanhar. Ris-te enfim, dizendo que a tourada te parece agora às avessas. O público ainda não perdeu a energia e grita e aplaude e apupa, tudo ao mesmo tempo. Foi para isso que todos viemos, para nos divertirmos com os gestos de falsa temeridade dos que tomaram a arena por sua conta. A festa esmorece finalmente, quando já o sol se faz anunciar lá longe e por detrás dos muros da praça de touros começa a despontar o perfil do castelo.
Voltamos ao centro, no meio dos que ainda não pararam nem desistiram. Perguntas-me, pela primeira vez, se não se cansam. Fico a pensar que sim, os de fora cansam-se sempre de madrugada.
Abreviamos, por isso. O café e os bolos no mercado, as farturas, talvez uma aguardente ou um licor de poejo, serão despachados mais depressa do que gostaria. O sol já vai alto quando regressamos. E agora, quando a cidade devia animar-se, as ruas esvaziam-se, embora por pouco tempo.
Logo mais, já para o fim da tarde, começará a procissão, o ponto alto da festa. Não resistes a corrigir-me e a dizer que o ponto alto de uma festa religiosa é a missa. Voltarás atrás quando vires o happening social que é a procissão de domingo. Vão todos, vamos todos, os crentes, os ateus e os agnósticos.
A procissão tem sempre a mesma maneira de se organizar, com a guarda republicana à frente, depois a imagem do Santo Condestável, a seguir uma banda, um pouco mais longe a Senhora do Carmo e o pálio logo atrás, mais outra banda e, no fim, muita gente, num magote anárquico. Pelo meio ficam as confrarias e a comissão de festas, em lugar de destaque, entre os cordões de fiéis. Há escuteiros e padres de megafone em punho, tentando pôr ordem numa indisciplina que está na massa do sangue indígena.
A procissão move-se devagar, ao ritmo das bandas, entre as filas de espectadores. Há sussurros, comentários e, talvez, um pouco de má língua. Observarás, perspicaz, que as hierarquias sociais são bem visíveis nos papéis destinados a cada um na procissão, mas ninguém parece ligar muito a essas coisas.
Acima das nossas cabeças, as janelas vestem as suas melhores colchas, uma homenagem cheia de cor à fé que vai passando. Em baixo continua o desfile, pelo qual esperaremos várias vezes. Apanhamo-lo na primeira esquina, esperamos que passe, iremos adiante, veremos as mesmas pessoas, ultrapassaremos a multidão  mais uma, duas, três vezes, até tudo acabar, já com o Sol a pôr-se lá longe, por detrás dos cerros e das escarpas que separam o Alto do Baixo Alentejo.
A procissão repete-se todos os anos, reescrevendo-se sempre como um velho palimpsesto. Ainda assim, algumas tradições perderam-se para nunca mais voltarem. Até há uma dezena de anos, não mais do que isso, desfilavam dezenas de pagadores de promessas. Pequenas nossas senhoras, pequenos anjinhos e joões baptistas em miniatura misturavam-se com os que levavam sobre bandejas as razões das suas promessas, que andavam pelas ruas antes de serem postas nos altares da devoção de cada um.
Já quase não verás isso e por pouco não me acusarás de tudo mudar tão depressa. Para trás ficaram dois milénios de combate a este paganismo remoto e que é também uma das mais profundas tradições mediterrânicas. Tudo - repressões, campanhas, ameaças, falas mansas - foi inútil, até finalmente se instalarem na vida o comedimento, o parecer bem e os bons costumes. E, assim, o colorido de algumas coisas antigas começou a dar lugar a tons mais cinzentos e bem comportados.
À noite mergulhamos durante umas horas na habitual corrida de touros de domingo. Suportarás, uma vez mais, a provação de um espectáculo taurino, agora na versão da festa aristocrática dos tricórnios, das casacas rebrilhantes, dos ferros longos e curtos, da temeridade forcada, dos campinos. Nada, nem o colorido, nem o toque cadenciado da banda, nem os aplausos, nem as voltas à arena te arrancarão a um estado de transe a que só o final da corrida virá pôr cobro.
Regressamos ao centro, quando Moura começa outra vez a cair no silêncio, e iremos até ao jardim, construído sobre a velha muralha dos tempos da Restauração. Dizes, com ironia, que os anarquistas haveriam de gostar de uma ideia assim, canteiros de flores sobre um templo da guerra.
Não há mais ninguém no jardim a esta hora. Um contraste nítido com festas que já lá vão, quando os bailes eram sempre aqui. O excessivo entusismo de alguns e as rixas, que sistematicamente devastavam flores e tudo o que estivesse pela frente, levaram a mudar o sítio da pista de dança. Depois vieram as noites na discoteca e depois vieram os bares, aqueles que viste cheios de juventude. E, depois, é próprio dos da minha idade dizerem que os bailes são uma sombra do que já foram.
 
SEGUNDA-FEIRA
Segunda-feira é a coda da festa. A segunda-feira é sempre mais rápida e mais curta que os outros dias. Um pouco mais melancólica, também. Quando a festa era em Outubro nunca se sabia se choveria e se isso iria arruinar os cofres da comissão. Sim, porque era no último espectáculo, o de segunda-feira à noite, que se ia buscar o alento para começar tudo de novo.
Este ano não haverá concerto de música clássica, esse verniz de cultura que durante muitos anos ocupou a tarde do último dia. Não ouvirás, por isso, o efeito ribombante das peças mais populares dos grandes autores, tocadas com energia e brilhantismo pela banda do exército, sob as abóbadas da igreja de S. João.
Com o dia meio vazio - sempre me pareceu menos de festa que os outros - passearemos mais um pouco. A praça, vezes sem conta. Começas a apanhar o ritmo, ao cabo destes dias intensivos de hábitos mediterrânicos. Recordas o que deste sítio escreveu Saramago e recitas-me o nome das árvores que fazem o suave semi-círculo que acompanha os edifícios públicos encostados às muralhas do castelo. Loendros, loureiros, freixos, faias, olaias, mostras um pouco de erudição que embaraça o meu desconhecimento. As árvores, contudo, não abrigam ninguém nestas horas de calor e servem apenas para consolar os olhos e nos dar uma ilusória ideia de frescura.
Esperaremos sem pressas o fim da festa. É indiferente saber quem actua, como faço questão de te dizer. Vai-se sempre, só porque não se quer faltar. Diverte-te saber que em tempos os espectáculos se faziam na praça de touros, crismada por um dia como Esplanada Salúquia, como se o sítio não fosse o mesmo. Bilhetes mais caros na arena, onde se alinhavam mesas e cadeiras, entradas a preços populares lá em cima, nas bancadas. E havia esse requinte chamado "lugar de pista", que permitia que se ficasse no redondel, mas de pé. Parece-te uma ideia bizarra, embora te explique que era a solução preferida de boémios, farristas e conquistadores, aqueles que se alheavam do espectáculo e ficavam a beber, a conversar ou a fazer olhos de carneiro mal morto às mourenses mais belas.
A função agora cumpre-se no velho campo da bola, com o terreno de jogo ocupado pelo palco, pelas cadeiras, pelas mesas e pelas bancadas. O fim de festa é, ainda hoje, um exemplo perfeito de ecletismo musical. Há sempre três-artistas-três mais um grupo de baile. Os artistas distribuem-se, democraticamente, pelos vários escalões etários do público, começando o espectáculo pelos tons mais suaves e subindo progressivamente o nível dos decibéis. Na parte final os mais velhos já terão debandado discretamente, deixando o terreno todo para os jovens.
Quando chegar a madrugada não haverá mais nada a fazer ou a dizer. E quando amanhã te levar ao expresso também não te perguntarei nada. Nem sobre a festa, nem sobre Moura, nem do que mais e menos gostaste, nem nada. São aqui difíceis as comparações e os debates. Cada um de nós vê os sítios e as coisas de uma forma diferente e única, com o nosso olhar a reflectir aquilo que somos, o que aprendemos, o que amamos e o que não.
Ficaremos só com a memória destes dias, mesmo sem saber que Moura conheceste e se conseguiste fazer todos os caminhos da festa. Ficarei sem saber que Moura levas contigo, se algum dia voltarás e que cidade irás encontrar e que outros caminhos quererás percorrer.  
Mariano Piçarra
António Cunha
José Manuel Rodrigues
 
Moura - crónica da festa é uma edição da Câmara Municipal de Moura. O esquema de produção foi definido em 1999 e a festa fotografada, no Verão de 2000, por Alberto Frias, António Cunha, António Pedro Ferreira, José Manuel Rodrigues, Mariano Piçarra e Rui Cunha. O texto, que aqui se reproduz, foi por mim terminado poucas semanas depois. O livro, extenso registo a cores e a preto e branco do que são as Festas de Nossa Senhora do Carmo, foi lançado ao público em Julho de 2001. Entre a ideia e o lançamento o fotógrafo José Manuel Rodrigues foi galardoado com o Prémio Pessoa.
 
Fiquei, desde o início, com a sensação que em Moura as pessoas não gostaram especialmente do livro. Demasiado intelectual, chegaram a dizer-me. O trabalho deu, ainda, origem a equívocos mais ou menos divertidos. Um deles foi o de que a ficcionada jovem que conduzo ao longo da festa era na realidade "alguém" e que "alguma coisa" se teria passado. Nunca me dei ao trabalho de dar qualquer explicação sobre a matéria.
 
Ultimo por estes dias um livro sobre Santo Aleixo. Um outro, sobre a Amareleja, começa agora a ganhar forma. Será um projecto a desenvolver com dois fotógrafos de renome internacional. Sou fiel, nesse aspecto à velha máxima de Oscar Wilde: I have the simplest tastes. I am always satisfied with the best.

2 comentários:

Anónimo disse...

Para além das fotos gosto, neste livro, desta introdução que acho simplesmente maravilhosa! De vez em quando, dou comigo a relê-la. E quando o faço, é como se sentisse a festa em qualquer dia do ano. É um texto muito bonito.
"(...)Ficarei sem saber que Moura levas contigo, se algum dia voltarás e que cidade irás encontrar e que outros caminhos quererás percorrer." - Há coisas que por mais que se tentem mostrar/explicar, só conseguem ser sentidas por quem gosta verdadeiramente da sua terra. E isso é visível neste texto.
Pessoalmente acho que o livro está muito bom. Parabéns pela parte que lhe cabe e fico a aguardar os próximos trabalhos.

B.B.

Santiago Macias disse...

Obrigado BB (seja v. quem for e não faço ideia quem seja...). Os próximos trabalhos estão na calha. É uma questão de tempo.