domingo, 19 de novembro de 2017

TODO O OURO DA ADIÇA

Está em curso um projeto de exposição intitulado De Totalica à Adiça: 5000 anos de mineração. Deveria ter sido concluído no verão passado mas, sinceramente, não consegui. Encerrei o processo em início de outubro e entreguei-o, em meados do mesmo mês, à entidade competente. Aguardo agora resposta.

Que se pretende? Mostrar toda a riqueza mineira do concelho de Moura e cruzá-la com a produção artística (nas suas vertentes eruditas e populares, que se iluminam mutuamente e se complementam) e com a vida quotidiana. Importa trazer à luz do dia o tesouro do Álamo, mais o thymiaterion de Safara (que pode ser ou não de Safara, mas isso é o que menos importa). É crucial mostrar (pela primeira vez) as pouco conhecidas, e hoje desaparecidas, tábuas da Adiça, assim como é importante mostrar os obeloi do Castro da Azougada. Luz e sombra em volta dos metais. Enquadrem-se os metais no texto de Hesíodo (sécs. VIII-VII a.C.), na sua Teogonia, onde se fala nos Jardim das Hespérides (o sul da Península Ibérica, provavelmente) e das árvores de pomos de ouro. Alberto Gordillo e Francisco Hermenegildo darão cor e brilho à exposição. Espero poder contar com a luz das fotografias de Jorge Campaniço.

Outras imagens (as pinturas de Alexandre Charles Guillemot, François Boucher, Johann Georg Platzer, Anthony van Dick, as fotografias de Uwe Niggemeier) entrarão em diálogo com o ambiente de uma forja. Os brinquedos tradicionais farão outro apelo à memória de todos nós. O poder do deus Hefestos estará sempre presente.

O projeto encerra com a recriação do ambiente de uma mina. Voltamos ao início e ao Génesis: "e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. / E Deus disse: Haja luz; e houve luz".

No final, sai-se para a luz.

Imagens poesia, luz e ambiente. Tradição e modernidade, passado, presente e futuro, eis a ideia central de De Totalica à Adiça: 5000 anos de mineração. Eis outra forma de afirmar o orgulho do/no nosso território. Com custos financeiros irrisórios.



Thymiaterion - usado em cerimónias rituais


Obeloi - espetos

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

IDA ÀS SORTES

Foi um dos grandes génios da comédia do século XX. O seu humor tem tem típica matriz cultural judaica, muitas vezes tida como "americana"... Por isso também nos identificamos tanto com ela. Jerry Lewis (1926–2017) tem aqui um dos seus muitos pontos altos da sua carreira. No filme Sailor beware, de 1952, há um exame médico. Em dado momento, é necessária uma amostra de sangue. A partir do minuto 3:20 o delírio é total. A comédia em antecipação dos próximos dias.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

MÉRTOLA - FEIRA DO LIVRO

Post "publicitário". Para anunciar a Feira do Livro de Mértola e o respetivo programa. Sem espavento nem muito barulho, eis uma bela feira com uma interessantíssima programação. Aqui, na vila à beira do Guadiana, entre 19 e 25 de novembro.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

QUANDO O NOVO ALCAIDE TOMOU POSSE DO CASTELO

Luis D'Antas tomou posse do castelo de Noudar no dia 3 de junho (raio de coincidência...) de 1516. O cerimonial de entrega e o inventário que o novo alcaide fez são bem conhecidos dos historiadores e estão transcritos no texto "Auto d'uma posse do Castello de Noudar e inventário do que lá exisitia no século XVI", de Pedro de Azevedo. O texto foi publicado no vol. V de "O archeólogo portuguêz", de 1900.

Que relata Luís D'Antas?

Que "a casa que está em cima da dita torre [de menagem] está derribada e no chão, e toda a água que nela cai cala a torre e vai abaixo".
Que há um portado "com duas portas com duas armelas e sem ferrolho nem fechadura e uma delas tem a couceira quebrada".
Que há "sete armaduras de cabeças muuito antigas e quebradas".
Que há "uma faldra e gossete de malha grossa muito ferrugenta e quase podre"
Que há "seis bocetes da mesma sorte e ferrugentos".
Que há "uma alpartaz (?) de malha muito ferrugenta e podre".
Que "na primeira casa que serve da câmara [há] duas janelas com suas portas sem aldrabas (...) e esta casa [está] mal reparada do telhado". E "na dita casa [há] uma tripeça de pau da Guiné quebrada de um cabo e dois bancos velhos e um taipal velho".

E mais:
"todas as outras casas do dito castelo todas derrubadas e sem telhados" [com exceção de uma, que servia de estrebaria...].
"em todas as portas da vila não há nenhumas portas, senão uma só quebrada, que jaz no chão".

etc. etc.

Ou seja, o novo alcaide fazia um relato catastrófico do que o antecessor lhe legara. Ou seja, o novo alcaide acautelava a vidinha.

Quaisquer paralelos com a realidade atual não são coincidência. É um clássico da política do truquezito. Primeiro, fazem-se promessas irrealistas. Depois, já no Poder, age-se à Luís D'Antas: afinal não pode ser, porque isto estava tudo espatifado. E precisamos de auditorias, porque é preciso sabermos tudo... E embrulha-se tudo na suspeita, que é sempre a melhor solução quando não se tem solução concreta para os problemas.

Portanto, e no que a Moura diz respeito:

1) Que a auditoria comece o mais depressa possível;
2) A Câmara de Moura teve recentemente uma longa e aprofundada inspeção feita pela Inspeção-Geral de Finanças, prática habitual em todas as autarquias;
3) Os discursos da suspeição não lançam apenas dúvidas sobre o anterior presidente da Câmara de Moura, mas também sobre toda a gente que intervem neste domínio (técnicos da autarquia, consultor financeiro, chefe de divisão, revisor oficial de contas etc...). É uma atitude que registo e que merecerá a minha atenção futura.
 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A SALA DO TRONO

Ontem à noite, não sei bem porquê, lembrei-me desta passagem do relato de Liuteprando de Cremona, quando foi recebido pelo imperador bizantino Constantino Porfirogeneta, o qual se sentava num espetacular trono:

À frente do trono do imperador estava uma árvore em ferro dourado, em cujos ramos estavam pássaros de vários tipos, também feitos em ferro dourado, que cantavam de diferentes maneiras. O trono em si era tão habilmente construído que ora parecia baixo ora se elevava a grande altura. Era guardado dos dois lados por enormes leões de ferro ou madeira dourada que batiam com as caudas no chão e rugiam alto, com as bocas abertas e as línguas que se moviam.

Nesta sala, seguido por dois eunucos, fui levado à presença do imperador. À minha entrada, os leões rugiram e os pássaros cantaram, mas isso não me encheu de terror nem de admiração, porque já tinha sido avisado por outras pessoas que já tinham passado por essa experiência. Mas, depois, de me ter prostrado pela terceira vez, quando levantei a cabeça, vi o imperador, que antes estava sentado um pouco acima de mim, quase junto ao tecto da sala, vestido com outras roupas. Não sei como isto era feito.

É uma das minhas passagens preferidas sobre a corte bizantina, a par com alguns textos de Procópio de Cesareia (séc. VI). Os sofisticados mecanismos que Liuteprando relata perderam-se com o tempo, mas é interessante, em especial, a menção ao trono que se eleva aos céus. Este endeusamento do poder está bem presente até os nossos dias, com particular expressão nas áreas geográficas tocadas pelo império bizantino.
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O ritual de prostração a que o embaixador foi obrigado chama-se proskynesis. Mergulha as suas raízes no mundo persa e chegou, também ele, até aos nossos dias, sendo hoje usado na ordenação de sacerdotes.


A sala do trono em Bizâncio é uma obra do orientalista francês Jean-Joseph Benjamin-Constant (1845–1902).

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

TERCEIRO FILME: O ELO PERDIDO

No meio de infindáveis arrumações, o passado salta a cada momento. Retoma-se um estudo antigo (105 páginas para um primeiro rascunho, tenho de tentar ser mais contido...) e prepara-se um projeto de investigação sobre o urbanismo tardo-medieval da região alentejana). Coisas que as prioridades autárquicas tinham deixado para trás.

Às tantas, e no meio de dossiês antiquíssimos, dou com duas pranchas, que serviram de base ao genérico de uma curta-metragem. Uma obra-prima do design gráfico... Já quase tinha esquecido o assunto.

Frequentei, em 1980, um curso de cinema ministrado num clube que existia na Av. Columbano Bordalo Pinheiro: o Clube Micro-Cine. Era um grupo de entusiastas, que usava películas em super-8 (um formato hoje do domínio pré-histórico). Havia ali gente talentosa. Um dos melhores cineastas era um jovem médico, Nuno Monteiro Pereira, hoje um nome de referência na área da urologia.

Éramos convidados a desenvolver um projeto. Sem máquina, "colei-me" a um senhor que morava em Queluz. O senhor Sérgio Soares que, salvo erro, era bancário e teve a paciência e a simpatia de deixar que um puto de 17 anos lhe sugerisse um argumento. Era algo bastante pueril sobre o avanço da cidade sobre a Natureza.

O final incluía o filho do sr. Sérgio, numa tirada bastante demagógica e primária sobre o futuro. Foi o mehor que consegui e eu não sou propriamente o Orson Welles... Anos mais tarde, fiquei bastante aliviado ao ver que Grigori Alexandrov fez uma patacoada do género na remontagem do "Que viva México!". Dei um par de gargalhadas numa sessão da Cinemateca e as pessoas que estavam perto ficaram a olhar para mim naquela do "este gajo deve ser anormal".

Com a máquina do tempo ontem a funcionar consegui lembrar-me que a banda sonora de "Quadros de uma cidade" incluía Carlos Paredes e Mike Olfield (sugestões de Paulo Amorim, consultor da película)... Os filmes erma gravados sem som, depois era colocada uma banda, onde se fazia depois uma pós-sonorização. Isto foi há 37 anos. Do filme, visionado uma vez não voltei a ter notícias. O sr. Sérgio Soares deverá andar pelos 70 ou um pouco mais. É pouco provável que ele saiba deste blogue ou se lembre de mim. Daqui lhe deixo um abraço de agradecimento, pela solidariedade e bonomia que teve para com um rapazola atrevido e assertivo.



QUANDO O "EXPRESSO" SE TORNA "CORREIO DA MANHÃ"


Quando o jornalismo, supostamente de referência, recorre a estes truques, está quase tudo dito.

domingo, 12 de novembro de 2017

O RACISMO EM DIRETO

"Coisa de preto". Um larga a bojarda racista, o outro ri ao jeito do Mutley (v. aqui).

Em Portugal, o assunto passou à margem da comunicação social.

Acaba aí? Não acaba. Num país parcialmente bolsonarizado, é significativa a posição oficial da GLOBO:

"[Waack] faz comentários, ao que tudo indica, de cunho racista (...)"

"[Waack] afirma não se lembrar do que disse, já que o áudio não tem clareza (...)"

"William Waack é um dos mais respeitados profissionais brasileiros, com um extenso currículo de serviços prestados ao jornalismo (...)"

"A TV GLOBO, a partir de amanhã, iniciará conversas com ele para decidir como se desenrolarão os próximos passos (...)"

Tradução: vamos deixar isto arrefecer, que depois ele volta...

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

28Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! 29Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. 30Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? 
31Não vos preocupeis, dizendo: ‘Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?’ 32Os pagãos, esses sim, afadigam-se com tais coisas; porém, o vosso Pai celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso. 33Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo. 34Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema.» (Lc 12,28-31)



Bohumil Kröhn, 1937/38

Robert Mapplethorpe, 1988

Porquê a citação se as fotografias sugerem ou representam jarros? Porque gosto desta passagem e porque os jarros, em inglês, são "calla lily". E lily é lírio...

sábado, 11 de novembro de 2017

S. MARTINHO E A LUTA DE CLASSES


Dia de S. Martinho. O homem misericordioso que partilhou com um seu irmão. Todos iguais? Nem tanto. Na visão deste pintor anónimo do século XV, S. Martinho é muito maior que o mendigo. Cada um no seu lugar...

Hoje é dia de celebração. Celebremos as tradições do sul, que é aqui que vivemos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

KEOPS, KEFREN E MIKERINOS

Uma destas imagens era-me familiar, mas a minha amiga Paloma Canivet veio recordar-me que há muitas mais. Recordarções de um tempo em que as pirâmides ainda tinham nome grego. Hoje usam-se também as designações Khufu, Khafre  e Menkaure. Já não se pode trepar pelas pirâmides. Não faço ideia como lá chegaram as dondocas de salto alto.

CATEDRAL DE BURGOS 
A catedral de Burgos tem trinta metros de altura
E as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura.
Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura!

Este poema de António Gedeão tem 50 anos. Foi escrito a pensar na Catedral de Burgos, mas poderia ter sido sobre as grandes pirâmides.




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

DE SINES

Regresso a Sines, um sítio que mal vi, na rápida passagem de há semanas. Regresso à quietude de uma cidade que já não existe junto à falésia e ao castelo, à serenidade da praia, à estrada feita porto de abrigo. Ao minimalismo de uma janela no castelo.

Regresso a Al Berto:

Há-de flutuar uma cidade

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade




quarta-feira, 8 de novembro de 2017

SURUBA ARTÍSTICA

Via Alexandre Pomar, no facebook:

"a minha residência pretende problematizar a teia de relações que contribui para a formulação de padrões de comportamento e interação em espaços de WC. A partir da minha prática artística e investigação individual, tenciono potencializar diálogos em torno de interações queer, que questionem e subvertam as funcionalidades normativas destes espaços – muitas vezes violentamente regulados - e reguladores - de concepções impostas pela ordem social capitalista. Convido, assim, o público a juntar-se a mim, em diálogos relativos aos temas acima enunciados, partilhando, por exemplo, as suas experiências e fantasias relativas a estes espaços de normatividade e potencial subversão. Convido e incentivo também todos os interessados a entrarem em contacto comigo para participarem como modelos neste projeto artístico..."

Onde, quando e quem?
Residência no WC
Jaime Welsh
11 a 18 de Novembro 2017
Rua das Gaivotas 6

Integra-se no projeto Efeito Suruba (!) e tem curadoria do colectivo Pipi Colonial (!).

Tenho, ainda, a secreta esperança que isto seja uma brincadeira pós-carnavalesca. Caso contrário, sugiro uma próxima residência-suruba com roupagens assim:

DE UR PARA UM ZIGURATE NAPOLITANO E DAQUI PARA ESCHER





Fomos todos ao encontro de nós próprios
se olhamos para o céu é na expectativa do que nos possa trazer alguma lua nova
-  já o santo o sabia nesse tempo
os homens sempre foram os mesmos
Não saberás de algum remédio convincente
para abalar um coração tristemente contente?
Terás no fim para nós uma morte tão funda
que nos separe de todo o mal que fizemos
e assim nos aproxime do bem que desejámos?
Quando vieres pela estrada de sião
então afastarás de nós a impiedade
Nós somos os das tendas aqueles para quem
não é possível a transfiguração
Só duvidam um pouco de si aqueles a quem
já tu senhor pediste alguma vez alguém
O nosso deus é um deus ofendido


Final do poema "Aquele grande rio Eufrates", de Ruy Belo. Um poema com Deus e a crença em fundo. Fui ao poema pela recordação do Eufrates e dos zigurates. Dos zigurates da elite mesopotâmica se passa às casas, extraorinárias é palavra curta, da ilha de Procida. Vistas pela ótica de Paolo Monti (1908-1982). Confesso, com vergonha, que só há dias cheguei à sua obra.
De Procida fui aos zigurates de M. C. Escher (1898-1972). Sempre as casas. Sempre os caminhos.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO

Faz hoje 100 anos. Foram esses os dias que mudaram o mundo. Não me interessa aqui fazer o elogio (que poderia fazer, convictamente) da Revolução de Outubro. Mas uma coisa tenho como certa. Sem essa Revolução, o processo de libertação dos povos, de muitos ouros povos, não teria sido possível. O combate ao colonialismo, o combate a tantas outras formas de opressão, tiveram aqui a sua fonte inspiradora. Aqui vos deixo uma breve sequência do file "Primeiro de agosto", uma produção chinesa realizada em 2010 por Son Yeming (n. 1954). Retrata o início da rebelião em Nanchang, em 1 de agosto de 1927, após os massacres em Shangai, levados a cabo pelas forças leais a Chiang Kai-shek. Foi o primeiro passo para a conquista do poder.

Ouve-se a Internacional:


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

MOURA - ÁGUA COM QUALIDADE EXEMPLAR

A notícia veio ontem no site da Rádio Planície.

Cito: "a atribuição deste galardão pela ERSAR, pretende evidenciar as entidades prestadoras de serviços de abastecimento público de água que em 2016 tenham assegurado uma qualidade exemplar da água para consumo humano".

Fico naturalmente satisfeito por todos os esforços que foram feitos, ao longo de décadas, para que esse reconhecimento tenha sido atingido. Imagino que a Céu Rato, vereadora do pelouro, esteja também satisfeita. Tal como o Hélder Dias. E o Alberto Ramos e a sua equipa. E a Mónica Moscão. E a Margarida João. E o Bruno Monteiro.

A água em Moura tem qualidade? É uma batalha antiga.

Episódio divertido:  quando a equipa tomou posse, em 2013, decidimos acabar com as garrafas de água engarrafadas nas reuniões de câmara. Não tanto pela despesa (mas também...), mas pelo exemplo que tem de se dar à população. Se o que fornecemos é de qualidade, então temos de o demonstrar... E temos de ser nós os primeiros a consumir a água da rede.

So far, so good. O pior foi quando se chegou à sessão da Assembleia Municipal. O presidente da assembleia, Francisco Cerejo, perguntou qual a razão de só haver água em jarros. Dei a explicação. Exigiu, em tom agreste, que se usasse o orçamento da Assembleia para comprar garrafas de água. Assim se fez...

Tenho curiosidade em saber como será na próxima Assembleia Municipal... Haverá garrafas ou será que se consome a água exemplar?


GÓTICO AMBULANTE

Passou, no outro dia, uma composição na estação da Amadora. Ía a caminho do Rossio e apresentava um aspeto semelhante a este (cf. infra). Paredes e vidros cobertos de tinta, mais opaca, mas translúcida. Entrei com a vaga sensação de estar dentro de uma catedral gótica. Que passou de flamejante a ambulante. Os graffiti enquanto meio de exressão urbana não me parecem nada mal. Desde que não grafitem monumentos, imaculadas paredes de cal, casas particulares ou outros sítios onde estão, manifestamente, a mais... A linha de separação entre criatividade e vandalismo é, por vezes, muito ténue. E onde uns verão criação, outros verão prejuízo. O descontrole e os excessos têm causado desconforto e protestos. Arte consensual não conheço, confesso...

Essas novas formas de expressão urbana (os DJ, os graffiters, a internet art etc.)  devem ser promovidas, estimuladas, consideradas pelos poderes políticos. E, também, objeto de alguma necessária pedagogia. E do devido enquadramento.

Espero que tenham sequência, em Moura, os congressos de DJ que promovemos. E que se abram ainda mais a outras formas de expressão.




domingo, 5 de novembro de 2017

TURISTAS

Tenho-me cruzado por estes dias com um razoável número de turistas, aqui pelas ruas de Mértola. Em especial na Vila Velha.

Há pouco, jantando no Tamuje com o meu velho e querido amigo Youssef Khiara, tive de servir de intérprete a duas francesas. Uma queria saber o que eram salmonetes. Eu disse que achava que era "rouget". Não sabiam o que era. O amigo Ruas trouxe os peixes à mesa. Não ficaram lá muito convencidas, mas mandaram grelhar. Não falavam UMA só palavra de português. E que o esforço de se fazerem entender as deixava "fatigués". Nessas alturas só me lembro da cena da cozinha do restaurante e das recordações para turistas em Amici miei - atto II, mas não é coisa que se conte aqui...

No outro dia, dois franceses na casa dos 60 e de bicicleta, ar sportif, troçavam do comércio da vila e, em especial, do mercado municipal. Não tinham razão no que diziam, mas o pior era a sobranceria. Eis os turistas, na visão de João Abel Manta, em 1972. Mudou muita coisa? Muitíssima. Só não mudaram os complexos de superioridade de alguns turistas.